Diário do Disgracera - UOL Blog

Tupinambás - Ibirapema

VIAGEM AO BRASIL

por Hans Staden em 1557

             “No mesmo dia, a julgar pelo sol, devia ser pela Ave-Maria, mais ou menos, quando chegamos às suas casas; havia já três dias que estávamos viajando. E até o lugar onde me levaram, contavam-se trinta milhas de Bertioga, onde eu tinha sido aprisionado.
           Ao chegarmos perto de suas moradas, vimos que era uma aldeia com sete casas e se chamava Ubatuba. Entramos numa praia que vai abeirando o mar e ali perto estavam as suas mulheres numa plantação de raízes, a que chamam mandioca. Na mesma plantação havia muitas mulheres, que arrancavam destas raízes, e fui obrigado então a gritar-lhes na sua língua "Ayú ichebe enê remiurama" , isto é: "Eu, vossa comida, cheguei".
           Uma vez em terra, correram todos das casas (que estavam situadas num morro), moços e velhos, para me verem. Os homens iam com flechas e arcos para as suas casas e me recomendaram às mulheres que me levassem consigo, indo algumas adiante, outras atrás de mim. Cantavam e dançavam uníssonos os cantos que costumam, como canta sua gente quando está para devorar alguém.
           Assim me levaram até a caiçara, diante de suas casas, isto é, á sua fortificação, feita de grossas e compridas achas de madeira, como uma cerca ao redor de um jardim. Isto serve contra os inimigos. Quando entrei, correram as mulheres ao meu encontro e me deram bofetadas, arrancando a minha barba e falando em sua língua: 'Che anama pipike aé' o que quer dizer: "Vingo em ti golpe que matou o meu amigo, o qual foi morto por aqueles entre os quais tu estiveste".
           Conduziram-me, depois, para dentro de casa, onde fui obrigado a me deitar em uma rede. Voltaram as mulheres e continuaram a me bater e maltratar, ameaçando de me devorar.
           Enquanto isto, ficavam os homens reunidos em uma cabana e bebiam o seu cauim, tendo consigo os seus deuses, que se chamam maracá, em cuja honra cantavam, por terem profetizado que me haviam de prender.
           Tal canto ouvi durante uma meia hora e não apareceu um só homem; somente mulheres e crianças estavam comigo.
           A maior parte deles tem só uma mulher; outros têm mais. Mas alguns dos seus principais têm 13 ou 14 mulheres. O principal a quem me deram da última vez, e de quem os franceses me compraram, chamado Abbati Bossange, tinha muitas mulheres e a que fora a primeira era a superiora entre elas. Cada uma tinha o seu aposento na cabana, seu próprio fogo e sua própria plantação de raízes; e aquela com quem ele vivia, e em cujo aposento ficava, é que lhe servia o comer; e assim passava de uma para outra. As crianças que lhe nascem, enquanto meninos e pequenos, educam-nos para a caça; e o que os meninos trazem, cada qual dá a sua mãe. Elas então cozinham e partilham com os outros; e as mulheres se dão bem entre si.
           Também têm o costume de fazer presentes de suas mulheres, quando aborrecidos delas. Fazem do mesmo modo presentes de uma filha ou irmã.
           Contratam os casamentos de suas filhas, ainda crianças, e logo que elas se fazem mulheres, cortam-lhes o cabelo da cabeça; riscam-lhes nas costas marcas especiais e lhes penduram ao pescoço uns dentes de animais ferozes. lima vez crescido o cabelo de novo, as incisões cicatrizam-se, deixando ver ainda o sinal desses riscos, pois que misturam certas tintas com o sangue, para ficar preto quando saram, coisa que é tida como uma honra.
           Quando terminadas estas cerimônias, entregam as filhas a quem as deve possuir e não celebram nenhuma outra cerimônia especial. Homem e mulher procedem decentemente e fazem os seus ajuntamentos às ocultas. Da mesma forma, consegui ver que um dos seus chefes em certa ocasião, cedo pela manhã, ao visitar todas as suas cabanas, riscava as pernas das crianças com um dente afiado de peixe; isto só para lhes fazer medo, de modo que, quando choravam com manha, os pais as ameaçavam: "Ai vem ele!" e elas se calavam.
           Quando trazem para casa os seus inimigos, as mulheres e as crianças os esbofeteiam. Enfeitam-nos depois com penas pardas; cortam-lhes as sobrancelhas; dançam em roda deles, amarrando-os bem, para que não fujam.
           Dão-lhes uma mulher para os guardar e também para ter relações com eles, Se ela concebe, educam a criança até ficar grande; e depois, quando melhor lhes parece, matam-na a esta e a devoram. Fornecem aos prisioneiros boa comida; tratam assim deles algum tempo, e ao começarem os preparativos, fabricam muitos potes especiais, nos quais põem todo o necessário para pintá-los; ajuntam feixes de penas que amarram no bastão com que os hão de matar.
           Trançam também uma corda comprida a que chamam mussurana com a qual os amarram na hora de morrer. Terminados todos os preparativos, marcam o dia do sacrifício. Convidam então os selvagens de outras aldeias para aí se reunirem naquela época. Enchem todas as vasilhas de bebidas e, um ou dois dias antes que as mulheres tenham feito essas bebidas, conduzem o prisioneiro uma ou duas vezes pela praça e dançam ao redor dele.
           Reunidos todos os convidados, o chefe da cabana lhes dá as boas-vindas e lhes diz: "Vinde ajudar agora a comer o vosso inimigo. Dias antes de começarem a beber, amarram a mussurana ao pescoço do prisioneiro. No mesmo dia, pintam e enfeitam o bastão chamado ibirapema com que o matam.
           Tem este mais de uma braça de comprido e o untam com uma substância que gruda. Tomam então cascas pardas de ovos de um pássaro chamado macaguá, e moem-nas até reduzi-las a pó, que esfregam no bastão. Uma mulher então risca figuras nesse pó aderente ao bastão, e enquanto ela desenha. as mulheres todas cantam ao redor. Uma vez pronto o ibirapema com os enfeites de penas e outras preparações, penduram-no em uma cabana desocupada e cantam ao redor dele toda a noite.
           Do mesmo modo pintam a cara do prisioneiro, e enquanto uma das mulheres o está pintando, as outras cantam. E logo que começam a beber, levam o prisioneiro para lá, bebem com ele e com ele se entretêm.
           Acabando de beber, descansam no dia seguinte; fazem depois uma casinha para o prisioneiro, no lugar onde ele deve morrer. Ali fica ele durante a noite, bem guardado.
           De manhã, antes de clarear o dia, vão dançar e cantar ao redor do bastão com que o devem matar. Tiram então o prisioneiro da casinha e a desmancham, para abrir espaço; amarram a mussurana ao pescoço e em redor do corpo do paciente, esticando-a para os dois lados. Fica ele então no meio, amarrado, e muitos deles a segurarem a corda pelas duas pontas. Deixam-no assim ficar por algum tempo; dão-lhe pedrinhas para ele arremessar sobre as mulheres que andam em volta ameaçando de devorá-lo. Estão elas então pintadas e prontas para, quando o prisioneiro estiver reduzido a postas, comerem os quatro primeiros pedaços ao redor das cabanas. Nisto consiste o seu divertimento. Isto pronto, fazem um fogo cerca de dois passos do prisioneiro para que este o veja.
           Depois vem uma mulher correndo com o ibirapema; vira os feixes de penas para cima; grita de alegria e passa pelo prisioneiro, para que este o veja.
           Feito isto, um homem toma da dava; dirige-se para o prisioneiro; pára na sua frente e lhe mostra o cacete para que ele o veja. Enquanto isso, aquele que deve matar o prisioneiro vai com uns 14 ou 15 dos seus e pinta o próprio corpo de pardo, com cinza. Volta então com os seus companheiros para o lugar onde está o prisioneiro, e aquele que tinha ficado em frente deste lhe entrega a maça. Surge agora o principal das cabanas; toma a dava e a enfia por entre as pernas daquele que deve desfechar o golpe mortal.
           Isso é por eles considerado uma grande honra. De novo aquele que deve matar o prisioneiro pega na dava e diz: "Sim, aqui estou, quero te matar, porque os teus também mataram a muitos dos meus amigos e os devoraram". Responde-lhe o outro: "Depois de morto, tenho ainda muitos amigos que de certo me hão de vingar". Então desfecha-lhe o matador um golpe na nuca, os miolos saltam e logo as mulheres tomam o corpo, puxando-o para o fogo; esfolam-no até ficar bem alvo e lhe enfiam um pauzinho por detrás, para que nada lhes escape.
           Uma vez esfolado, um homem o toma e lhe corta as pernas, acima dos joelhos, e também os braços. Vêm então as mulheres; pegam nos quatro pedaços e correm ao redor das cabanas, fazendo um grande vozerio.
           Depois abrem-lhe as costas, que separam do lado da frente, e repartem entre si; mas as mulheres guardam os intestinos, fervem-nos e do caldo fazem uma sopa que se chama mingau, que elas e as crianças bebem.
           Comem os intestinos e também a carne da cabeça; os miolos, a língua e o mais que houver são para as crianças. Tudo acabado, volta cada qual para sua casa levando o seu quinhão. Aquele, que foi o matador, ganha mais um nome, e o principal das cabanas risca-lhe o braço com o dente de um animal feroz. Quando sara, fica a marca, e isto é a honra que tem. Depois tem ele, no mesmo dia, de ficar em repouso, deitado na sua rede e lhe dão um pequeno arco com uma flecha para passar o tempo atirando em um alvo de cera. Isto é feito para que os braços não fiquem incertos, do susto de ter matado.
           Tudo isto eu vi e presenciei.
           Eles não sabem contar senão até cinco. Se querem contar mais, mostram os dedos da mão e do pé. Em querendo falar de um número grande, apontam quatro ou cinco pessoas, indicando quantos dedos da mão e do pé elas têm.”

 - Trecho do livro "Viagens e aventuras no Brasil" por Hans Staden, um alemão que fora aprisionado pelos tupinambás no litoral fluminense, em meados de 1550.



Escrito por Disgracera Em Movimento às 09h26
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ZUMBIIIIII...

Fim de semana puxado....

iéié!



Escrito por Disgracera Em Movimento às 22h23
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